Hey, mas foi só uma ilusão perfeita mesmo? Gaga e seu novo “JOANNE”

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A tarefa mais difícil de um artista talvez seja impor seu estilo ou dizer seus propósitos ao público. É algo necessário, não? Você divulga antes de lançar e, inevitavelmente, precisa dizer o que está fazendo. E convenhamos, não é sempre que dá certo uma mudança de estilo. O retorno financeiro ,infelizmente, conta e acaba travando qualquer possibilidade artística out of the box. Sem contar os haters gratuitos de vida vazia que rolam pela rede. Resultado? Prisão. Prisão criativa. Somado de uma pressão incrível de se superar sempre. Algo perigoso.

Lady Gaga simplesmente conseguiu reverter milagrosamente todo esse quadro de clausura pós-ARTPOP, lançando mão de uma carreira até então super mainstream/pop/jovem para se aventurar em outras áreas como o jazz (“Cheek to Cheek”) e a atuação (“American Horror Story: Hotel”), que espetacularmente acabaram dando muito certo.lady-gaga-blog-header

“Joanne” surge no momento certo. Ele não é apenas mais um exercício de procura por novas influências. Ela não está saturada e sem saber pra onde ir. Não! Quem é fã de verdade vai reconhecer muito da fase “Red and Blue” antes da fama, momento em que ela já tocava em pequenos bares e pôde agora ter o mesmo gostinho na Dive Bar Tour em parceria com a cerveja americana Bud Light.

Seu quinto trabalho de estúdio (se considerarmos The Fame Monster apenas um EP de The Fame) “Joanne” tem o nome de sua tia, irmã de seu pai, que faleceu muito jovem e deixou uma carga dramática enorme em sua família. Gaga já contou em várias entrevistas a existência de um vínculo com ela mesmo não a tendo nunca conhecido. Joanne morreu por lúpus, uma doença degenerativa que também acomete a cantora. A segunda explicação: este é seu nome do meio. Então, pela lógica, a artista consegue expor seu “meio”, sua essência, aquela sem ser rebelde e sem ser certinha. Apenas seu centro. Seu equilíbrio.

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Indiscutivelmente mais adulto e intimista, a nova era trouxe influências explícitas do country (talvez em sua maioria), funk (o norte-americano, não o brasileiro, em “Dancin’ In Circles”), folk, um pouco rock (“Perfect Illusion” que assustou a muitos Little Monsters de início) e mesmo a pop (“Diamond Heart”). É uma tracklist acima de tudo hamoniosa e coerente quando ouvida sem interrupções. Suas canções direcionam o ouvinte mais nostálgico pra um tempo em que os ritmos eram outros. Eram mais marcantes, melodiosos. Já ouviu aquela expressão “não se fazem mais músicas como antigamente?”. Pois é. Ela fez. (Ouça, por exemplo, Hey Girl — com a participação de Florence Welch). Aqui não somos expostos a apenas efeitos sintéticos pra dançar na balada. Aqui há piano, há uma voz crua que soa como se cantasse ao seu lado, há uma vibe mais acústica (“Million Reasons”), há saxofone (qual personalidade jovem e mais conhecida da indústria musical de hoje tem a audácia de usar sax em suas composições? Qual foi a última vez que você ouviu isso?). Acima de tudo há um intenso sentimento na forma de contar todas essas histórias.

Impossível não embargar a voz ao ler com atenção a letra que dá nome ao CD. Nela, Gaga pede que Joanne pegue em sua mão e fique em vez de ir para o céu. “Cada pedacinho de meu coração machucado precisa mais de você do que os anjos”. Acaba por contar que, no final das contas, ambas sabem que se fosse possível ficar, ela ficaria.

NASHVILLE, TN - OCTOBER 05: Songwriter Hillary Lindsey and Lady Gaga perform during the Bud Light X Lady Gaga Dive Bar Tour at The 5 Spot on October 5, 2016 in Nashville, Tennessee. (Photo by Rick Diamond/Getty Images for Bud Light)

E “Angel Down”? A canção que retoma a linha triste de suas antecessoras, como “Brown Eyes”, “Speechless”, “Yoü and I” e “Dope”. Ela foi feita em homenagem a Trayvon Martin, um jovem negro de 17 anos assassinado por um policial.

Percebe como ela te convida pra se sentar ali na frente e diz: “hey, essa é minha vida, minha bagagem, o que eu vi e me afetou, minhas histórias, meus pensamentos”. Além disso, ela ainda tem o grande triunfo de poder questionar o motivo das pessoas botarem pra baixo umas às outras, de erguerem o dedo pra dizer como cada uma tem que viver sua vida (“Come To Mama”), ou até mesmo de afirmar: “aqui está a minha oração de pecadora e eu sou o que eu sou” (na country “Sinner’s Prayer”).

Sem dúvida, “Joanne” é um divisor de águas na carreira de Lady Gaga. É inerente que álbuns mais dançantes virão pela frente, já que isso também faz parte de sua personalidade, mas seu projeto atual foi o único até então capaz de estabelecer um portfólio mais consolidado de compositora e intérprete. É a partir de “Joanne” que as pessoas no futuro vão poder dizer “olha, foi alí que a gente teve certeza do que ela era mesmo capaz”. Gaga já afirmou que foi esse o trabalho que a fez ter ânimo pra continuar. Bom… e só por isso nós já ficamos felizes e tiramos o chapéu (country e rosa, no caso).

21 Comentários

21 Comentários em "Hey, mas foi só uma ilusão perfeita mesmo? Gaga e seu novo “JOANNE”"

  1. simone diz:

    Paulo, gostei muito do que escreveu sobre ela, não me considero uma little monster, mas admiro muito o talento dela <3 ela canta com a alma *.* e todo mundo passa por momentos diferentes na vida e acaba mudando um pouco, o que não significa perder sua essência, pelo contrário, no decorrer da vida o ideal é que a gente se encontre cada vez mais. E tenho amado esta evolução dela <3

    • Paulo Altmann Paulo Altmann diz:

      Obrigado, Simone! Exatamente, concordo em tudo, a gente PRECISA saber renovar e mudar, e um(a) cantor(a) mais ainda. Quanto mais do mesmo lançar, o trabalho vai ficando repetitivo e meio chato… O Nickelback pra mim ficou assim, parei de ouvir por isso. 🙂

  2. É verdade, é difícil pra um artista se reinventar. A forma como ela entrou nesse meio foi bem estratégico e acertou em cheio todos que tinha que acertar, agora ela tem fãs fiéis que se forem fãs meeesmo, vai curtir qualquer trabalho dela. Eu não me considero fã louca, mas gosto MUITO do trabalho dela, tipo de admirar meeesmo, então eu amei esse álbum, tá tão ela, sabe? Tá puro, tá maravilhoso! Eu só acho que o nome é por causa do sobrenome dela mesmo, nem é por causa da tia em si, porque acho que o que ela quis que significasse é o fato de que existe uma Lady Gaga que ninguém conhecia, que é a Stefani Joanne Angelina Germanotta, sabe? Mas enfim, gostei mesmo! Tiro o chapéu pra Gaga também, eu adorei! Vi essa turnê que fez no bar, vi inteiro, perfeita! Com a voz bem pura, toda soltinha e lacradora, haha! As que eu mais gostei foi Sinner’s Prayer, Come To Mama (que daria pra colocar na trilha sonora de algum filme ou série) e Dancin’ In Circles.

    Beijos!

    • Paulo Altmann Paulo Altmann diz:

      Ela tá tão ela? SEI hahahahha Obrigado pelo comentário, Thami! Eu também acho que o album gira mais em torno por ser o nome do meio dela, mas como ela já deu essas 2 explicações, resolvi colocar hehe. E essa turnê no bar…. que vontade de ir também, né? Bjs!

  3. Eu não sou a super fã da Gaga mas sempre admirei o trabalho dela. A mulher tem muito talento e personalidade e acho que é isso que me atrai nela!!
    Pra começar, o nome do álbum já é uma linda homenagem né! Essa letra da música do álbum é muita emoção!
    Tô amando essa vibe rosa dela, e é verdade, devia ter citado ela no post do outubro rosa hehehehe

    Beijos
    BlogCarolNM
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    • Paulo Altmann Paulo Altmann diz:

      Eu tô adorando essa vibe rosa/barzinho… como ela mesmo disse… é algo que não tinha nos trabalhos anteriores e não há nada igual nas rádios hoje em dia! E as letras como sempre… dão um banho! Bjs!

  4. Eduardo Leroy diz:

    ÓTIMO resumo <3 Resta torcer para que, assim como a Mother Monster, alguns de seus fãs também amadureçam no caminho e entendam que essa briga desnecessária Diva x Diva ou paradas de vendas é tão ridícula como quem briga por futebol: não leva a lugar NENHUM.

    • Paulo Altmann Paulo Altmann diz:

      Pois é, Eduardo, é ridículo mesmo. Gaga pra mim é especial, minha favorita, #1, mas eu adoro todas as outras também e tenho os cds. Pra falar a verdade… eu acho essas brigas coisas de pessoas vazias… Já vi comentários no Twitter, por exemplo, de pessoas realmente dizendo (literalmente) que só estavam fazendo aquilo pra puxar briga pq é “engraçado”. Achei o cúmulo do ridículo. O cúmulo do vazio. O cúmulo do não-amadurecimento. As outras cantoras se confrontam com esse amadurecimento depois na carreira, aquele momento de “captar novos fãs ou mudar o conteúdo pra aqueles que sempre acompanharam? continuar meio teen ou ir pro adulto? meio termo?” E no meu ver, ela já tá fazendo isso agora mesmo sem perder tempo. Uma grande artista! Só isso. Assim ela vai se destacar das modinhas pop que logo desaparecem. Abraço!

  5. Oi Paulo, eu ando meio por fora dessa nova fase da Gaga ~ mas se tem uma coisa que ela sabe fazer, é se reinventar, né? Achei bacana a A-YO, vou procurar as outras músicas desse trabalho!

    • Paulo Altmann Paulo Altmann diz:

      Oi, Camila! É sim! Se vc curtiu A-YO, procure por Dancin’ In Circles ou Diamond Heart que são as mais agitadas! Se curte as mais melancólicas, o álbum tá totalmente recheado! Quando tiver um tempinho, ouça! Abraço! ^^

  6. Charlie Mendes diz:

    Fui ouvir apenas para não julgar sem conhecer o conteúdo, confesso que me surpreendi com a qualidade e com o quão boas as músicas são. Me agradaram bastante, até mesmo as que não tinham agradado apenas com as prévias. Parabéns, Gaga, uma renovação maravilhosa para sua música, agradando até mesmo quem não é Little Monster.

    • Paulo Altmann Paulo Altmann diz:

      E não é, Charlie? Pois eu também! Mesmo sendo Little Monster, fiquei um pouco receoso com algumas prévias, eu tinha gostado mas não foi aquela coisa “O… M… G…”. Quando ouvi todas por inteiro pude comprovar: as prévias não são NADA como elas inteiras. Me surpreendeu demais! E fico feliz quando vejo mesmo aqueles que não são Little Monsters ouvindo e gostando, pq música é pra ser assim! Nada hermético. Abraço!

  7. Jenny Andrade diz:

    Resenha muito boa!!! Diamond Heart e Million Reasons são minhas favoritas, agr diferente da maioria A-YO não me fisgou ainda, por enquanto ainda acho muito “bate o pé no chão”. O álbum tá muito bom, apesar que poderia ter um pouco menos de country, sem dúvidas um dos melhores do ano.

    • Paulo Altmann Paulo Altmann diz:

      Obrigado, Jenny!!! A-YO só foi me capturar alí pela 3ª ouvida quando eu pensei “quer saber? é pra ser descontraída mesmo! vamo lá, então!” Eu acabei gostando com o tempo. Hoje já ouço e fico aqui cantando! E quanto ao country, relaxa, que logo logo ela lança mais coisas diferentes! Existem outras canções prontas, com toda a certeza do mundo. Ela já até chegou a registrar uma que não tem no CD (se não estou errado, posso estar falando besteira, mas chama Room In My Heart e ela escreveu com o Elton John). Então… acredito que vem coisa por aí rápido. Até pq ela tinha dito que o American Horror Story tinha influenciado mto nas composições que ela tinha feito, e eu não vejo nada da série nesse álbum de agora. Esperemos, né? Hehe. Abraço!

  8. Clayci diz:

    Muito boa a publicação!!

    Acho que ela ter dado uma pausa na música fez com que ajudasse e muito na sua carreira.
    Ela é maravilhosa e comecei AHS por causa dela hahaha

  9. Dan Alves diz:

    Melhor coisa que a Gaga fez foi ter descansado um pouco sua imagem na música (e focando em AHS), ela está com o foco todo na música e isso que importa, Joanne não é lá um álbum mil maravilhas mas também não é ruim, ele é bom pelo fato de Gaga tá se reivantando novamente.

    • Paulo Altmann Paulo Altmann diz:

      Oi, Dan, concordo com o “descansar a imagem”, ainda mais nesse mundo onde os haters vêm de enxurrada e sem argumento algum. Nada saturado é tão bom assim. Nem pra ela. E que venha mais AHS com ela, pq na 6ª temporada tem tão pouco dela, né? Adorei “Hotel”. Abraço!

  10. Dean Carlos diz:

    Eu sempre fico em dúvida se alguns artistas simplesmente amadurecem ou se transformam de tal forma que já não são aqueles pelo qual o público gostou. É o caso da Gaga, não sei o que pensar. Acho importante um artista conhecer sua marca acima de tudo, sua sonoridade e o que faz se destacar. Gaga nesse disco aposta na voz, na emoção e quer deixar claro que é isso que ela considera como seu maio atributo. Bom pra ela, mas não é o caso pra mim ( e talvez pra grande maioria): Gaga era pop chiclete sim, mas ela tinha aquela ironia e sagacidade nas letras e na construção das músicas com grandes refrões, era uma música pop consciente que era uma música pop feita pra estourar. Era genial pq a gente sabia que ela era mais do que isso, mas ela deu exatamente o que queríamos. Com Joanne eu fico me perguntando: é isso que eu espero quando me vem Lady Gaga na cabeça? Infelizmente pra mim talvez ela seja uma artista com pretensões maiores do eu espero dela.

  11. Duarte Lima diz:

    Ai gente, que álbum, queee álbum! A cada música que eu ia ouvindo só ia melhorando e eu não sabia dizer a mim mesmo se havia gostando mais da anterior ou da atual. Essa menina GaGa só me dá orgulho mesmo, e eu agora quero que o “Joanna” receba todo o reconhecimento possível, porque é bom demais da conta! Paws up, baby!
    Destaques para: Sinner’s prayer, Joanne e Hey Girl!

  12. Amanda Novaes diz:

    Eu amei o novo álbum da Gaga! Tá bem diferente do som que ela vinha fazendo. Me identifiquei tbm com as letras. Bem fortes e lindas! <3

    Bjs!