O flagra

O dia estava bem propício para tomarmos uma sopinha durante o jantar. Há dias não chovia na cidade… Aquela noite seria uma ótima oportunidade para fazer o prato preferido do Cássio. Desde cedo eu vinha pesquisando algumas ideias práticas e simples, já que eu não manjava tão bem quando o assunto era culinária.

O meu intuito principal era fazer um jantar à dois e depois assistir à uma comédia romântica. Eu gostava do gênero e, bem, o Cássio fingia que também curtia. Não tinha como dar errado: comida gosta + filme bobinho = casal feliz.

Naquele terça-feira, eu e o Cássio estávamos completando 4 anos de namoro. Para muitos pode ser só mais uma data qualquer, já para mim significava muita coisa, pois em breve daríamos um grande passo no nosso relacionamento. Sim, estávamos planejando um casamento para o mais breve possível, assim que eu e ele terminássemos a faculdade.

18h em ponto o Cássio estava na frente do meu trabalho. Ele era tão lindo. O seu sorriso ganhava qualquer pessoa com facilidade. Diariamente ele me levava e buscava no trabalho. “Um príncipe”, minhas amigas diziam. E eu acreditava nisso. Me sentia orgulhosa por trabalhar numa empresa grande, ter uma família maravilhosa e um namorado que me acompanhava desde quando havia terminado o colegial.

Já dentro do carro, Cássio olhou para o retrovisor e arrumou o seu cabelo pela trigésima vez. Ele era vaidoso do tipo que usava pó compacto e batom da cor dos lábios. Sinceramente, não via nada de errado nisso. Ele ficava ainda mais lindo quando se produzia.

– Oi, amor! Como foi o seu dia? – ele me lançava essa pergunta todos os dias, antes de colocar a minha franjinha para o lado e me beijar.

A voz do Cássio não era grossa, mas também não era afeminada. Ele tinha uma voz agradável de se ouvir. Eu o amava por completo, até mesmo suas falhas. A barba dele era mal feita, mas o deixava ainda mais incrível. Em mim habitava um amor inexplicável.

– O dia foi puxado, amor, mas eu estou bem! O que você vai fazer mais tarde? – perguntei por perguntar, pois sabia que ele iria propor algo para comemorarmos o nosso aniversário de namoro.

– Na verdade, tô bem cansado! Vou pra casa tomar um banho, terminar meu TCC e depois dormir. E você? Vai pra faculdade hoje? Fiquei sabendo, no grupo da sala, que não teremos aula! – ele me respondeu friamente, como quem não lembrava da comemoração de logo mais.

Durante 4 anos de relacionamento, todas as vezes o Cássio esqueceu a data. A justificativa era de que estava sobrecarregado no estágio que fazia na empresa dos tios. Eu o compreendia! Eu também sempre andava esgotada. Mas, porque ele não esquecia da data de aniversário do seu amigo Gustavo, da data de casamento dos pais ou, indo mais longe, dos compromissos marcados com o seu personal? Era injusto isso!

Meio como quem não queria nada, disse que iria à faculdade entregar um trabalho e logo voltaria para casa também, pois estava cansada. Não falei para ele sobre o nosso aniversário de namoro, mas confesso que me bateu um desanimo.

Eu me doava 100% àquele relacionamento, porém, Cássio vacilava algumas vezes. Aniversário de namoro ele esquecia, meu aniversário ele já esqueceu uma vez… Em alguns momentos eu me sentia como um nada. Parecia que ele não me queria por perto. Contudo, quando estava na frente dos outros, ele me tratava como uma princesa, ou melhor, me usava como um troféu, como se tivesse ganho o maior prêmio da loteria.

Após ele me deixar em casa, subi pro apartamento dos meus pais e me tranquei no quarto. Chorei um pouquinho, o suficiente para deixar os meus olhos vermelhos e a maquiagem toda borrada. Fiz uma rápida oração pedindo ajuda a Deus. Não aguentava mais viver naquela insegurança. Me sentia bem ao lado de Cássio, mas em algumas vezes eu não o conhecia.

Inexplicavelmente, me bateu uma vontade incontrolável de conversar com Cássio e explicar o que se passava na minha mente. Durante as sessões com a minha terapeuta, ela dizia para eu não guardar mágoas e pensamentos ruins. O certo era me esvaziar sempre.

Peguei a chave do carro dos meus pais e fui para o estacionamento. Esqueci bolsa, carteira e celular. Quando fui perceber, já estava dentro do veículo. Eu só queria falar pro Cássio que ele era o grande amor da minha vida e que eu queria casar com ele. Eu só o queria ter para sempre na minha vida, pois já não conseguia ficar longe dele. Diariamente eu contava as horas para estar com ele.

Quando cheguei ao quarteirão da casa do Cássio, avistei um carro parado em frente à sua casa. Não reconheci a placa, mas imaginei que deveria ser de alguma amiga da irmã dele.

Estacionei logo atrás do carro desconhecido e fui andando rapidamente rumo ao interfone da casa do Cássio. Quando cheguei próximo ao veículo que eu não conhecia a placa, vi uma movimentação estranha dentro. Os vidros eram pretos, mas deu para perceber que haviam dois homens se beijando.

Uma mão se mexeu dentro do veículo. O relógio era inconfundível. Aquele era o relógio que eu havia dado para o Cássio no nosso último aniversário de namoro. Fiquei sem chão, literalmente. Saí correndo para dentro do carro dos meus pais. Me faltou ar, me faltou força, me faltou luz.

Liguei o carro, coloquei na marcha-ré e depois engatei para primeira. Acelerei o máximo que pude e bati com tudo na traseira do veículo desconhecido. A pancada foi muito forte, o suficiente para acionar os icebergs do meu carro.

Após a batida, saí do carro e fui em disparada ao veículo até então desconhecido. Respirei por 2 segundos, acho, e abri a porta ao qual estava Cássio. Ele tinha um corte no rosto. Nada muito grave. Puxei ele para fora e disse tudo o que estava preso por muito tempo dentro de mim.

– Seu filho da puta! Você poderia simplesmente ter me largado, evitando me enganar por 4 anos. Você não vale nada, Cássio! NADA! Eu te amava até alguns segundos atrás; agora eu te odeio. TE ODEIO! Some da minha vida e nunca mais apareça. Fique tranquilo! Guardarei seu segredinho…

 

Posts relacionados

2 Comentários

2 Comentários em "O flagra"

  1. Avatar Laryssa Cunha diz:

    A melhor parte de todas as suas postagens é que em cada uma delas tem um pouquinho de você, continue escrevendo sempre, estarei aqui torcendo pelo seu sucesso.

  2. Avatar Vi Furrati diz:

    Adorei a história, muito bem escrita!

    Se quiser participar, estou sorteando um kit de acessórios lá no blog: http://www.cobaiaamiga.com/2018/08/sorteio-acessorios.html